Publicado por: PCdoB-PG | 21/12/2011

Lendas Urbanas em PG (5): Mito de uma Cidade Alemã

*Sérgio Luiz Gadini

Como a história nem sempre é feita de consenso, de forma lógica e coletiva, algumas cidades constróem – e tentam manter – mitos que não condizem com a devida seriedade dos acontecimentos históricos. Em Ponta Grossa, quando se trata de explicar a formação e a influência de grupos étnicos que colonizaram a Cidade, as coisas se confundem um pouco e, ao que parece, não há muito interesse em se fazer alguns esclarecimentos.

É desta forma que se pode falar, na Princesa dos Campos, em uma espécie de lenda germânica que teria parte fundamental na formação socio-cultural da população do município.

Não se trata de negar a existência de famílias e grupos de germânicos que teriam aportado aos Campos Gerais, entre a última década do século XIX até a quarta década do século XX, quando a chamada grande guerra também teria forçado uma onda de migrantes à América (do Norte ao Sul). Mas seriam, acaso, provenientes da colonização alemã as maiores ou principais características de Ponta Grossa?

Levantamentos do censo demográfico, em diferentes momentos da Cidade, indicam que migrantes de vários países europeus vieram para Ponta Grossa pelas mais diversas motivações. Dentre os grupos, pode-se citar italianos, alemães, russos, poloneses, ucranianos, entre outras origens. E se no RS os dois principais movimentos migratórios se dividiam entre alemães e italianos, em SC a hegemonia da colonização germânica teria forçado um deslocamento ou a permanência dos grupos oriundos do Leste Europeu em território paranaense, mais recente nas ondas migratórias registradas no Sul do Brasil em meados do século XIX. Agora, antes disso, já moravam contribuintes no Paraná: indígenas de variadas tribos, tropeiros migrantes e (ex)escravos refugiados de senzalas em crise! Todos, obviamente, com suas influências e traços culturais que ainda hoje fazem parte do cotidiano ‘paranaense’. Goste-se ou não!

Daí se explica uma maior pluralidade na formação étnica paranaense que, aliado à força do tropeirismo marcado por grupos quilombolas desde o século XVIII, recebeu migrantes procedentes de diversas nações européias, entre as quais muitos de histórica formação eslava, de moradores do Volga e de ex-repúblicas que, mais tarde, foram anexadas ao império russo.

Não seria, nesta perspectiva, tão exclusiva e tampouco hegemônica a presença ou influência alemã em Ponta Grossa. Estima-se, inclusive, que em alguns momentos das primeiras décadas do século XX, haveria registro da existência de mais migrantes do Leste Europeu, por exemplo, do que alemães na formação étnica e cultural da Região.

Mas, se as migrações se adaptam e passam a fazer parte da vida cotidiana dos diferentes espaços sociais, alguns pontagrossenses parecem insistir no tradicional ‘mito’ germânico em Ponta Grossa. E, mesmo distante, a Princesa dos Campos passou a contar, a partir da virada dos anos 1980/90 com uma festa pretensamente típica da cultura germânica: a München Fest, também apresentada como Festa do Chop Escuro e a “Maior festa alemã do Paraná”.
O detalhe é que, apesar do esforço de uma representação tardia da cultura alemã na Cidade, os rumos da indústria musical acabaram por tornar a referida festa em mais um evento marcado por shows massivos que se dividem, quase fraternalmente, entre variações de um ‘sertanejo comercial’ e o pagode, com alguma pitada de música pop (solo ou em grupo).

De germânico, como se vê, fica mesmo o nome e, eventualmente, o esforço na roupa das meninas que disputam o título de ‘raínha’ da munchen. Ou, talvez, nas vestes oficiais de alguns representantes do poder público. Além, é claro, de alguns adereços com o vermelho e preto da bandeira alemã que marcam a divulgação do evento. “Noiss tamén ten fritz e frida”, sugere-se em alguns pontos da Cidade!

E, agora, um novo esforço espera fortalecer a lenda’: nas grandes festas, o Centro de Eventos teria mais uma homenagem à cultura germânica em Ponta Grossa: uma ‘Vila Alemã’, com lanches ou pratos supostamente típicos dos remanescentes migrantes do velho império austro-húngaro!

E, assim, a lenda de que PG seria (mais) uma cidade alemã parece esquecer um pouco a igualmente importante influência de outros grupos étnicos que fizeram (e fazem) parte da história do Município. Ou, quem sabe, outras vilas – ucranianas, russas, italianas e polonesas – estejam sendo pensadas em algum privilegiado espaço da intelectualidade princesa?

De toda forma, é bom ter cuidado, pois, de repente, alguém pode até pensar que ‘bolinho caipira’, ‘porção de falefel’ ou ‘carne de onça’ também seriam pratos típicos da cultura germânica em PG!

Sérgio Luiz Gadini, professor de Jornalismo da UEPG, membro do Conselho Municipal de Cultura PG, presidente do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ). sergiogadini@yahoo.com.br


Respostas

  1. E por que as outras etnias que formam a população da cidade não fazem uma festa para celebrar suas tradições? Seria muito interessante se negros, russos, italianos, ucranianos e índios também pudessem apresentar à cidade sua cultura, culinária, música e tradições numa grande festa que congregasse todas as etnias.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 816 other followers